3.12.09

da poetiza

Silenciosa fêmea.
Ferida,
tornou-se fera.
Voltou-se treva.
Cantou no nada,
a dor.
Trincou o corpo.
Dor.
Encolheu-se em U,
pariu do ventre:
dor.
Dor.
Dor.
Saiu de si,
falaram de ti,
agiram em teu nome.
Contraiu-se a 7 palmos.
Dor.

15.11.09

É difícil conter teu cheiro no meu corpo. Eu preciso de um banho: amanhã é segunda e a vida continua. Corre. Tu sabes, um ano passou tão rápido para a gente. A verdade é que do teu lado as horas correm, os minutos voam. Eu cresço, tu envelheces. Me pego pensando em se ainda me amarás assim tão enérgico, tão forte, quando eu deixar de ser a tua Lo-lee-ta de juventude à flor da pele. Já se passaram 20 minutos, tu vê?! Só de pensar em ti o tempo (es)corre. E nesse meio tempo de palavras mal escritas teu cheiro se vai. Para conter teu cheiro só te mantendo toda vida no meu colchão, porém, como já dizia o poeta, é dificil aprisionar os que tem asas. (Eu aceito o desafio).

9.11.09

uma noite dessas, meu bem, clareia o pensamento de qualquer mulher nublada. nunca tantas verdades foram expelidas sob uma cama - sob o chão, sob o balcão, sob o apoio da parede; diga-se de passagem. histórias sobre dois passados nada entrelaçados que se uniam em um único som naquela noite. as peles nuas, e molhadas pela chuva que entrava pela janela, exalavam libido num odor nunca visto tão substancioso. she tastes like heaven. os dois construíram daquele amor fortaleza, e a habitam de mãos dadas. um ano e alguns meses ainda contêm a juventude e a chama a crepitar daquele primeiro mês de beijos no cinema e encontros de blues (velvet). nunca antes ele mostrara-se tanto para ela. rendeu-se sem insistências. desarmados e amantes - e a chuva escorrendo pelos ladrilhos da rua lá fora, pelos corpos flamejando ali dentro.

aquela
garoinha nunca será suficiente para cessá-los.

Letras arrancadas do dicionário são montadas feito quebra-cabeças. Frases sintéticas, mecânicas, robóticas contando estórias que a autora jura ter vivido - os dedos cruzados escondidos por detrás das coxas grossas revelam a criança inexperiente que tenta inutilmente camuflar.

Meu bem, não é preciso nem ativar meu sexto sentido para perceber a tentativa forçada (frustrada) de juntar as palavras a contar-nos mentiras. Tais versos nunca nasceriam de seus dedos.

Há aquela menina que roubava livros, eu conheço uma ladra de vivências.

29.8.09

mulheres dissimuladas

o salto alto em mãos, o batom colorindo a boca em tom de provocação. não precisava dizer uma única palavra para mostrar para quê estava ali.
os pés despidos deslizavam com astúcia sob o assoalho suado, as mãos tateavam à procura da saída. rápido! rápido!
a pele manchada em tom violeta pelo corpo alvo acusava a luta constante por qual passara - a briga nos colchões, o sexo sem perdão. rápido! rápido!
pagou a conta, chamou o táxi. maquiou as pernas, o pescoço, a virilha - de olhos fechados. trânsito louco. rápido! rápido!
subiu, pé por pé, os degraus. abriu a porta. o salto em mãos, o batom nos lábios, a base mascarando os chupões, a face sem vergonha.
susto. surpresa. tapa, face derretendo em rouge, a vergonha deu as caras.

22.8.09

Give me my Romeo; and, when he shall die,
Take him and cut him out in little stars,
And he will make the face of heaven so fine
That all the world will be in love with night,
And pay no worship to the garish sun.
Romeo and Juliet, 3. 2
I feel in love with a beautiful boy on the black sand
He took me away, I was never the same on the black sand
He said, "Who’s going to love you buried underground?"
A mother unwed with a scar down her chest on the black sand
She met her mate on the old army base back in Thailand
Who’s going to love him, when all that’s lost is found?
I have this dream where I’m down on my knees on the black sand
I’m facing the sea as the wind pushes me down to my hands
Who’s going to mind, when the end is nigh?
Oh, on the black sand

black sand - jenny lewis

ground control to

Now it's time to leave the capsule if you dare

Não, não. essas não serão mais palavras que retratam broken hearts n acid tongues. cansei-me desse maquiavélico arsenal de assuntos, visto que tem ele me apunhalado aos poucos no discorrer sobre.
Peço licença para fugir do habitual, afinal não só de paixões vive uma mulher.
Esse é o ano de matar a mãe, de destruir estruturas milenares, de voar porta afora de encontro ao inevitável mal que dorme na calçada frente a minha janela, e eu só falo de amores? Não, não! Esse é o ano em que o único caminho que trilhei minha vida toda chega ao fim, meus passos árduos e obstinados deixarão pegadas agora em outro chão. A transição só não me é mais dificil pois sei que carregarei comigo tudo aquilo com que esbarrei n'outro caminho. Aprendizagens, amizades - e até amores.

17.8.09

te faço sexo sem pudor e é assim, na (da) imundície, que eu encontro acalento pr'alma. a castidade nunca acalmou meu espírito, minha devoção virou-se do avesso revirou-se e encontrou paz no absurdo.
na volúpia em que transformei meus dias eu descanso. no final sei que receberei minha absolvição, afinal, todo mundo sabe que a luxúria tem um quê de hormônios.
ou vice-versa.
16.agosto.2009 - Noite. Um corpo cansado inerte sob a cama. Imagens difusas na tela da televisão. Fotografias foscas nos porta-retratos, suspensos no criado mudo - cenas de uma realidade tão distante. O mundo havia parado.
17.agosto.2009 - Mañana. O sol inquietou o corpo na solidão dos lençóis suados. O relógio marcou 6:20 de um dia que prometia apenas o estático. O telefone tocou sob o criado mudo. Alôu? Estou voltando. Imagens multicolores irromperam do fundo cinza da televisão. As fotografias nítidas de um futuro próximo enfeitaram a cabeceira da cama. O mundo nunca para, de fato.